Um poema e Artic Monkeys

Já escrevi que desenho as palavras como lugares, 

onde te encontro, 

que ocupam os espaços da memória, os fragmentos do tempo,

que se misturam com os ecos de Mahler, 

com os fins de tarde na varanda, 

ou com as madrugadas da cidade,

no caminho, a pé, até casa. 


Escrevo e às vezes não me encontro.

Como se ocupasse um lugar de fora, a pairar, sem saber como pousar. 


É sobre ti este lugar do silêncio, 

sobre uma conversa parada no tempo. 

Essa que se precipitou para o abismo e se interrompeu com medos, sem risco. 

Essa que se transformou numa noite, num abraço.

Essa que se transforma num bater de coração, acelerado, em silêncio (ali lado a lado).


É na montanha que nos reencontro,

num copo de vinho, a brindar ao pôr-do-sol, 

nos cigarros que ficaram por trazer,

na incessante procura por atenção.


É na montanha, nos apartamentos altos, onde escrevo, que te reencontro. 


É sobre o amor que não se diz, 

sobre o que se transforma e se confunde e não chega a lugar nenhum. 

E é na noite, onde te perco, que te deixo partir. 


O lugar do silêncio são memórias do verão, 

são palavras e caminho até casa, onde ouço Artic Monkeys, 

onde regresso àquela janela e àquela montanha,

ao cigarro que me acalma, 

aos amigos que nunca desaparecem, 

porque “eu sabia que estavas cá”.


Esse lugar vermelho, confuso, inacabado, 

esse sol que traz a esperança, 

essas cartas que escrevo e guardo no bolso, para te entregar um dia…


É sobre o passado e a saudade. 

Sobre crescer dentro do mundo de fantasia, imaginário, onde vejo, sempre, ao longe, aquele pássaro só,

pousado do lado de fora. 


E é confuso, como a vida da rotina do trabalho,

que se mistura com o amor que ficou por viver.

É sobre as saudades dos avós e sobre ter medo de caminhar sozinho na montanha.

É um caminho a pé, sem contar o tempo. 


E ao longe o fim, o fogo. 

Porque sei que há um fim, mas até esse olhar para o futuro pode ser belo,

como um fim de tarde.


É aqui, este lugar do silêncio, 

longe do mar.

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